01.06.2010
Quando a política entra em campo na Copa do Mundo


Copa do Mundo e política sempre andaram lado a lado ao longo dos anos, desde a edição de 1934, disputada na Itália tomada pelo fascismo de Mussolini, até a de 1978, que aconteceu sob a ditadura argentina. Mais recentemente, no Mundial de 1998, houve a emblemática partida entre Irã e Estados Unidos em solo francês.
1934/1938: O fascismo
O ditador italiano Benito Mussolini transformou a organização da segunda Copa do Mundo, em 1934, em um jogo propagandista. Os membros do partido fascista tinham presença italianamente exagerada nos estádios: "Itália! Duce!", gritavam.
"Que Deus os proteja caso venham a perder", disse Mussolini ao técnico Vittorio Pozzo. Deus fez marcação cerrada, e os italianos levaram a taça.
Quatro anos depois, na França, chegou às mãos do capitão Giuseppe Meazza um telegrama curto e grosso de Mussolini: "Vencer ou morrer". Venceram, ao contrário da seleção da Alemanha nazista de Hitler, que ficou com os melhores jogadores da equipe austríaca depois da anexação de março do mesmo ano, mas nem passou da fase inicial.
1966: Coreia do Norte
O Reino Unido ainda não havia estabelecido relações diplomáticas com o regime de Pyongyang desde a Guerra da Coreia (1950-1953), e o Ministério das Relações Exteriores primeiramente se negou a dar os vistos aos jogadores asiáticos. Sob a ameaça de a Fifa transferir a Copa do Mundo para outro país, chegou-se a um acordo: os norte-coreanos teriam autorização para pisar o solo do Reino Unido, mas não haveria execução do hino nem o hasteamento da bandeira norte-coreana, com exceção do jogo de abertura e da final. Os norte-coreanos, de qualquer maneira, não estavam nessas duas ocasiões.
1974: As duas Alemanhas
Pela primeira e última vez nos 45 anos em que os alemães ficaram separados, a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática da Alemanha (RDA) se enfrentaram em um campo de futebol. Foi no dia 22 de junho, em Hamburgo, na fase inicial da Copa organizada pela Alemanha Ocidental. Contra todas as previsões, a RDA venceu por 1-0 com um gol de Jürgen Sparwasser aos 32 minutos do segundo tempo. Para evitar uma saia justa política, os jogadores não fizeram a troca de camisas no fim do jogo. Isso diante das cameras, claro, porque depois, às escondidas, seguiram a tradição.
1978: Boicote à Argentina?
O Mundial aconteceu sob a sangrenta ditadura argentina. Várias seleções ameaçaram não participar da Copa do Mundo, mas no fim das contas todas as classificadas resolveram ir. Só o holandês Johan Cruyff manteve a promessa de ficar fora da Copa. A Laranja Mecânica perdeu a final contra os anfitriões.
1982: O xeque do Kuwait
No Mundial da Espanha, uma figura nada comum nos campos de futebol marcou presença na partida entre a França e o Kuwait. Aos 35 minutos do segundo tempo, Alain Giresse marcou o quarto gol dos Azuis, e os jogadores árabes reagiram com espírito nada esportivo. De repente, um assovio veio da tribuna. Era do xeque Fahid Al Ahmad Al Sabbah, irmão do emir - em suma, o dono da bola - do Kuwait. A ordem era simples: deixar o campo em retirada. Os jogadores, claro, porque ele entrou no tapete - o verde, não o persa - e começou a reclamar. Funcionou: o juiz reviu os conceitos na hora, anulou o gol da França e retomou o jogo. No fim da contas, os Azuis venceram por 4-1.
1986: As Malvinas
Quatro anos depois da Guerra das Malvinas, os argentinos mostraram no México que ainda não haviam digerido bem a novela que se tornou a luta que travaram com a Inglaterra pela posse da ilha. Os torcedores da Albiceleste até morte aos ingleses pediam.
Nas quartas de final, houve confronto entre torcedores das duas seleções. Vários ficaram feridos. "Para a gente era como uma final. Não se tratava de ganhar o jogo, mas de eliminar os ingleses", diz Diego Maradona, autor de gol contra a Inglaterra até hoje considerado um dos mais bonitos de todas as Copas.
1998: Irã x Estados Unidos
Os dois países não tinham relações diplomáticas, mas ficaram cara a cara na primeira fase da Copa do Mundo que a França sediou. As autoridades franceses montaram um forte esquema de segurança para a ocasião, e o jogo aconteceu em paz. Os iranianos ganharam de 2-1, e os jogadores de ambas as equipes posaram juntos para a posteridade no final.
Fonte: © 2010 AFP - Staff
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